Sou do tempo

Sou do tempo da sandália surrada, da surra levada pela calça molhada de barro,

Ou apanhado só para por na conta mesmo, assim só pra não esquecer.

Sou do tempo da régua quebrada na mão, no braço e com todo esforço que faço

Lembro com saudades das aulas em que tanto aprendi.

Aprendi a respeitar meus mestres, meus colegas de aulas, meus pais, meu país!

O hino na entrada, a bandeira hasteada…quanto orgulho da memória das canções.

Da carteira com tinteiro para as pontas de penas e para o cabelo da coleguinha da frente,

Latim, francês, inglês, moral e cívica, assim era na minha Era.

Sou do tempo que o flerte não era assédio e elas gostavam dos homens que olhavam,

Tinha a praça, na praça tinha as coisas da vida, o coreto da banda, a caixa de som,

A rádio tinha novelas, musicas, recados… e tinha na caixa de som da praça,

Quanta graça no andar das donzelas, em volta da praça…

Quando praça, no quartel, longe da praça, saudades das prosas com os parceiros,

Dos parceiros da praça, do coreto, das moças em volta da praça.

Quando olhei o coreto ruiu, a praça não mais existiu, agora só na memória!

Sou do tempo que homem tinha H e procriava sua prole com mulheres,

Não era proibido ser feliz por querer e ter uma família, esposa filhos!

Saia na rua sem medo de homem mau, só do lobisomem, que era natural!

O maior perigo era um malandro com navalha, não usava saia, hoje a saia tem virgula!

Do tempo do conguinha rasgado, dedão esfolado e feliz correndo no mato,

Amassando o que a vaca fez, não uma só vez, muitas talvez,

Caneta de quatro cores, borracha para lápis e caneta, lancheira com Ki-Suko,

Não, nada disso, nem às surras, nem as penúrias me deixou insano ou maluco!

Não sei se ele foi comprar cigarros, mas não voltou e sozinha minha mãe me criou,

Minha vô ajudou, minha tia completou, mamãe sozinha muito batalhou,

Os casaquinhos de crochet completavam a renda e alguma prenda ela vinha me trazer,

Uma bola, uma bala, passeio no ônibus elétrico, algum lazer!

Sou de um tempo tão distante que hoje mesmo não obstante insisto em pensar,

Em lembrar que o aeroporto era bem longe da cidade e tudo era chácara ou fazenda,

Não gostar de homem ou de mulher era sério motivo de contenda,

Hoje me assusto na doutrina propagada por alguma agenda,

Desagregar a família para dominar a sociedade, sem hino, sem bandeira, EMC…

Sou do tempo do fio do bigode, ainda uso o meu, já branco, mas já não vale tanto,

Mais perto que longe a cada dia da sepultura, cultuo minhas memórias,

Minhas compartilhadas e isoladas histórias de um tempo de respeito,

Um tempo de amor ao próximo, a pátria, a família… sou do tempo!

02/2020

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